Atendimento psicanalítico a crianças




Quando atendemos crianças, primeiro recebemos os pais para escutarmos qual é a queixa e descobrir de onde provém a demanda: do médico, da escola ou dos próprios pais.

É mais comum que a indicação seja da escola, pois um professor atento percebe quando algo não está bem no desenvolvimento educacional daquele aluno: que pode apresentar dificuldades de aprendizagem; em se inserir ou permanecer em grupo; apresentar comportamento de agressividade ou isolamento, etc.

Quando a indicação é do médico — geralmente pediatra — é porque a criança apresenta doenças repetitivas; se encontram constantemente com viroses; têm dificuldades na alimentação; se encontram abaixo ou acima do peso, ou quando percebem que a criança é indisciplinada.

O tratamento é indicado sempre que houver sofrimento.

O corpo é afetado por tudo que sentimos, desde os sentimentos bons até os ruins. Dado que as palavras têm o poder de aliviar um sofrimento e também de deixar cicatrizes profundas que podem obstaculizar o desenvolvimento do ser humano. “Uma inibição em uma criança pode ir ao ponto de bloquear os seus funcionamentos vitais e de crescimento”. (Françoise Dolto, psicanalista francesa).

Escutamos os pacientes, mesmo que eles sejam muito novos. Falamos com eles, que podem também desenhar, jogar, encenar e por meio dessas formas de expressão colocam em cenas situações de sofrimento, ou até de equívocos, em relação ao que escutaram, não compreenderam e fantasiaram, e assim, podem desfazer equivalências sintomáticas.

A criança fala sobre o que lhe acontece: o que ouviram dos pais, professores, na TV, nos jogos de computador, dos amigos, etc. Quando os pais são separados, é muito importante que a criança fale da angústia que sente, da culpa que carrega por acreditar ser o responsável. E não é incomum, que os assuntos mal resolvidos entre o ex-casal, afetem a vida do filho.

Tudo o que acontece na vida de um ser humano, desde antes dele nascer, é importante e deixa marcas nesse pequeno ser em desenvolvimento, que podem gerar angústias e afetar o desenvolvimento psíquico dele. Acarretando problemas de simbolização, na sua relação com a realidade, pois o afeto que não é expresso em palavras e elaborado pode perturbar somaticamente.

Isso significa que o fato de uma criança ser filha de pais separados terá mais problemas que outras?

Não necessariamente, vai depender dos adultos que se ocupam da criança para ela poder simbolizar o fato de não ter pais morando juntos. Nós somos seres linguísticos, lembrando mais uma vez Françoise Dolto, e a herança mais importante é a transmitida pelo discurso e comportamento dos pais. Percebemos isso quando observamos os padrões de comportamento repetidos de geração a geração, através do automatismo de repetição inconsciente.

A psicanálise liberta as crianças daquilo que elas ouviram e deixou marcas nocivas, é um lugar onde podem falar sobre o que sentem, em vez de apresentar no seu corpo o que sofrem. 

07/03/2016                                                        

Andreneide Dantas
Psicanalista e Psicóloga




#escutaanalitica1

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