YES Blog da Escuta: Outubro 2012

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A análise liberta as crianças daquilo que elas ouvem.


(Imagem retirada da internet para fins de ilustração)



A análise liberta as crianças daquilo que elas "ouvem"



Quando atendemos crianças em psicanálise, podemos "libertá-las" através das palavras daquilo que elas ouviram e ouvem dos seus pais e familiares, como bem nos ensinou a psicanalista francesa, Françoise Dolto. 

Palavras que podem ter sido enunciadas em momentos de raiva, sofrimento ou quando suas mães não “sabiam” que aquilo que elas diziam, afetariam negativamente seus filhos. Pois, a maioria das vezes, as pessoas dizem brincando algo que faz muito mal. Lembro-me de uma mãe que chamava seu filho de “porcaria” e ela achava que era algo carinhoso, uma outra quando queria fazer um carinho no filho dava  “palmadinhas” nele, “de forma leve para não doer”, dizia. Na verdade, tanto em um exemplo quanto no outro, os filhos foram marcados em seu corpo por esses atos, e os repetiam na vida adulta, e isso os atrapalhavam. E não poderia ser de outra forma, pois acreditar que se é uma "porcaria" ou que "palmadas são carinhos", não podem trazer nenhum benefício.

Na análise com crianças, temos a possibilidade de desfazer esses equívocos enquanto eles estão acontecendo, diferente da análise com adultos onde alguns ditos na infância já tiveram um longo tempo de "fertilização" e consequências negativas.

Com crianças, o jogo, o desenho, a encenação tem lugar. Ela fala, joga, desenha. Algumas vezes faz um, outras faz os dois: joga e fala ou desenha e fala, ou até encena em silêncio. 

Os pais se surpreendem, pois não entendem como seus filhos tão pequenos, têm o que dizer, e acreditem: eles falam! Contam sobre o que lhes acontecem, falam sobre os desejos que têm, sobre as angústias que sentem, sobre seus medos, seus sonhos com bruxas e monstros, sobre o que seus pais disseram e fizeram, etc.

Através dos desenhos representam o que está em seu psíquico, e os convidamos a falarem sobre sua produção.  Com eles, nos indicam como está o entendimento em relação ao seu meio: a sua família, escola, amigos, irmãos e também mostram como respondem em relação ao que o outro quer deles.

E o mais importante de tudo isso, é o fato de que todos os jogos têm suas regras, que determinam o que pode ou não ser feito, e isso nos dá a oportunidade para mostrar para a criança que vivemos em uma sociedade que também têm leis, e que é muito importante que nós as respeitemos.  E não são raras as vezes, em que nos deparamos com o fato de que essas crianças não estão tendo em casa o estabelecimento das regras e dos limites, pois seus pais não conseguem transmiti-los, por não se autorizarem a ocupar o lugar de autoridade.

Com a encenação de uma brincadeira a criança coloca no simbólico, um real que muitas vezes é ameaçador ou que trouxe sofrimento, e quando finalmente conseguem colocar em palavras, sentirão alívio e não "precisarão" adoecer. 

Concluindo, em análise as crianças podem falar e mostrar o que elas entenderam em relação aos desejos de seus pais, e através das encenações, dos desenhos e dos jogos, podem elaborar algo que não fez bem para elas. Aprendem também, que "nem tudo pode ser feito" ou realizado na forma como elas querem, e que isso é uma condição para todo ser humano!

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Andreneide Dantas   (05/10/12)