YES Blog da Escuta: Novembro 2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Crianças medicadas em vez de escutadas.

(Imagem retirada da internet para fins de ilustração)








  












Crianças medicadas em vez de escutadas

Muitas crianças apresentam dificuldades escolares: dificuldades para aprender Matemática, para ler e escrever, outras, apresentam dificuldades em se concentrarem na sala de aula. Para essas últimas, alguns profissionais ou pais (angustiados) antecipam-se em diagnosticá-las como crianças que têm problema neurológico intitulado de TDHA (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) ou dislexia,  e mediante esse diagnóstico, logo são ministrados medicamentos.

Não é por acaso, que o número de caixas do medicamento Cloridrato de Metilfenidato consumidos no Brasil, subiu em dez anos (2000 a 2010) de 70 mil para 2 milhões segundo IDUM (Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos).

O que aconteceu aqui? Porque um número tão expressivo?

Podemos e devemos, antes de darmos um diagnóstico que a classifiquem como alguém com problemas neurológicos ou psiquiátricos, nos perguntar: 
O porquê de sua desatenção? 
O que está acontecendo com elas?
Será que precisam de óculos? 
Estão dormindo bem? 
Como estão seus pais?
Alguma mudança na estrutura familiar? Problemas de trabalho, com álcool ou drogas na família? Mudança de residência? Alguma doença? Brigas? Violência?

Enfim, a lista pode ser enorme e somente depois, deveríamos fazer a investigação neurológica e psiquiátrica.

Um outra informação importante é que nem todas as crianças aprendem sempre no mesmo ritmo ou tem facilidades e ou dificuldades com as mesmas matérias.

Então, devemos nos perguntar por que em nosso país estamos diagnosticando desmesuradamente crianças que têm dificuldades na escola, como disléxicas, hiperativas ou com transtorno de atenção.

Como podemos fazer para não incorrermos no erro de reduzir as dificuldades que as crianças apresentam a seu sistema físico-químico? Como fazer para dar oportunidade a essa criança de falar sobre o que lhe acontece? Para que elas possam colocar em palavras (ou através do jogo e desenho) aquilo que ela está mostrando com seu corpo e seu comportamento?

Um olhar e uma escuta atenta dos professores em relação a seus alunos é de fundamental importância, para que os problemas que eles apresentam não sejam atribuídos somente ao que acontece com seu corpo. 
É evidente que é através dele, que as crianças mostram os sinais das dificuldades ou dos conflitos que elas estão sentindo, seja ele qual for. Porém, suas dificuldades não se reduzem ao que sentem nele, pois muitas vezes o que sentem em seu psíquico é o que o afeta as suas relações e comportamento.

Os professores e educadores, têm uma função que é essencial para o desenvolvimento do aluno e de orientação às famílias dos mesmos, pois ás vezes os pais contarão apenas com essa possibilidade para se posicionarem melhor e procurarem um diagnóstico e tratamento adequados.

#professor #educador #desatenção #medicalizaçãodascrianças #TDAH #hiperatividade #dislexia

Andreneide Dantas   (26/11/12)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Quem é esse Outro que "habita" em mim ?




(Imagem retirada da internet, meramente ilustrativa)


Quem é esse Outro que "habita" em Mim?

Situações embaraçosas, escolhas de caminhos tortuosos, pensamentos repetitivos, sofrimentos que poderiam ser evitados...Quem é o causador? (leia-se causa-dor).O porquê disso tudo? É o destino? É carma? É azar?

Porque, mesmo querendo fazer diferente algumas pessoas não conseguem? Porquê não conseguem ser "senhores" de suas escolhas?

Alguns, buscam a resposta na ciência, religião, cosmo ou nas estrelas. Outros, inconformados e cansados de tanto sofrerem munem-se de coragem (pois é preciso ter coragem para enfrentar os próprios fantasmas) e encaram uma análise. Chegam um pouco desacreditados em relação ao que vão encontrar. Perguntam se é melhor tomarem remédios... pois o problema pode ser um hormônio "enlouquecido" ou uma doença genética.

Sabemos que essa não é uma tarefa simples, pois existe todo um percurso a seguir e geralmente o sujeito que sofre, acredita que “é mais fácil procurar culpados”. E o culpado primeiramente é sempre o outro: o pai, a mãe, o chefe, o namorado, a namorada, o gene ou uma molécula.

Um outro fala além de mim? “Não sou dono de todas as minhas vontades?”, perguntam-se. Somente depois, é que descobrem que esse outro que governa seus pensamentos, suas fantasias, seu Eu, sua vida, é um outro dele mesmo, é um Outro que “habita” dentro dele, a ponto de fazê-lo tomar "essa" ou "aquela" atitude. Custam a acreditar que essa força que é maior que sua vontade e que o impulsionam a sofrer e a repetir situações muitas vezes desprazerosas, provém deles mesmos, e não do destino! E quando finalmente não conseguem mais negar, começam a se responsabilizarem pelo que fazem. 

Quando isso acontece, surpreendem-se e até se divertem com as descobertas.

Esse outro responde pelo nome de Inconsciente. Inconsciente esse, que Sigmund Freud (psicanalista) descobriu nos idos de 1900 através do trabalho que empreendeu com suas pacientes histéricas, quando escutou que o sofrimento delas transcendia a seu organismo e que tinha uma força tão grande, que era capaz de controlar a vontade e o corpo delas.

O inconsciente é uma instância simbólica, que é autônoma em relação ao Eu do sujeito. É algo que governa ou desgoverna a vida, é o que não descansa nunca, pois ele conta, reconta, calcula, conta a dor, a morte, a vida do sujeito. Até quando dormimos ele está de plantão, “como um capitalista que não pára nunca”, segundo os ensinamentos freudianos, e que produz os mais belos sonhos e bizarros pesadelos!

Esse inconsciente, o freudiano, não é o mesmo que o contrário da consciência, é o que traz o selo das palavras escutadas na infância, dos significantes primordiais que marcaram o sujeito desde que ele nasceu. Tem relação com sua história familiar, com os costumes e o discurso de sua família, pois assim como os traços genéticos, eles também são transmitidos através das gerações.

O sintoma de cada um é inconsciente, por isso é algo mais forte que o sujeito, maior que sua vontade, algo que o incomoda, faz sofrer, e traz prejuízos; que o desconcerta, o desequilibra e faz dele um fantoche de seu Inconsciente.

E a análise deste “terreno” inconsciente que revela os equívocos, os tropeços de linguagem e as armadilhas que cada sujeito se faz, possibilita que ele saiba quais são os significantes que marcaram sua existência e que o empurra a fazer suas escolhas, seu modo de amar e de gozar (gozo no sentido psicanalítico como uma satisfação que nem sempre é prazerosa).

Sendo o Inconsciente um "saber não sabido", um saber que o sujeito tem, mas que não está acessível para ele conscientemente, ele necessita de um Outro - o psicanalista – que o escute e marque em seu discurso onde ele tropeça, o que ele repete e as “sabotagens” que se faz. E quando o sujeito consegue decifrar em análise seu sintoma, descobre a causa de seu sofrimento, o porquê de suas repetições, das rupturas dos laços afetivos, do uso de entorpecentes, das doenças repetitivas, etc.

Na análise, o analista escuta além da intencionalidade, pois é no registro do inconsciente que ele opera, escuta aquilo que na palavra do sujeito o trai, o que lhe atravessa, aquilo que estava reprimido. “É como se as palavras pulassem de minha boca, mas não era o que eu queria dizer”, revelou um paciente. Ora, é exatamente o que ele queria dizer, porém "não sabia". E saber sobre isso, lhe abre uma nova perspectiva, pois poderá fazer escolhas diferentes a partir dessa descoberta. Assim, poderá se colocar como dono de suas escolhas e de seu destino e não mais atribuirá ao Outro o que lhe acontece.

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Andreneide Dantas (13/11/12)