YES Blog da Escuta: Julho 2020

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Ansiedade Infantil



Ainda há os que acreditam que a infância é um momento muito feliz da vida?

Acreditam em uma infância onde reina a felicidade plena e a pureza de sentimentos e pensamentos?

As descobertas freudianas nos mostra que é na infância onde criamos os monstros que carregamos durante toda a vida, muitas vezes disfarçados de incapacidades, timidez, inseguranças ou doenças.

A criança ainda não tão articulada em seu discurso muitas vezes é tomada por significantes que a alienam, trazendo uma gama de inseguranças, ansiedade e infelicidade.

A ansiedade é comum em vários momentos da vida, é um sinal de alerta importante para advertir sobre os perigos possíveis, possibilitando a busca de estratégias para enfrentá-los e nos estimula a buscar situações novas, auxiliando também no nosso desenvolvimento. Neste caso, a ansiedade é bem-vinda é necessária a nossa sobrevivência.

A ansiedade quando patológica também pode causar reações desagradáveis, emoções exacerbadas, emocionalmente desgastante, acompanhada de sensações subjetivas de medo, terror, pânico, sensações desproporcional à realidade, reações físicas como enjôos, vômitos, tonturas e dor de cabeça.

Na criança, os Transtornos de ansiedade são comuns, dificultando a atenção, a memória e a aprendizagem em toda a sua amplitude, a vida social e familiar também é afetada. A criança com Transtorno de ansiedade sofre em demasia, muitas vezes não consegue identificar seus medos e inseguranças.

Conhecendo um pouco sobre esse transtorno que para a psicanálise encontra-se dentro da estrutura neurótica e para o DSM. IV se encontra descrito da seguinte forma:

-TRANSTORNO DE ANSIEDADE DE SEPARAÇÃO DSM.IV / CID-10.

No CID-10, o TAS é chamado de “ansiedade de separação da infância”. Ele está incluído na seção das “desordens emocionais com início específico na infância” que incluem transtorno de ansiedade fóbica na infância e transtorno de ansiedade social na infância, dentre outras.

(F93.0 NA CID.10) 309.21 TRANSTORNO DE ANSIEDADE DE SEPARAÇÃO

Características Diagnósticas

A característica essencial do Transtorno de Ansiedade de Separação é a ansiedade excessiva envolvendo o afastamento de casa ou de figuras importantes de vinculação (Critério A). Esta ansiedade está além daquela esperada para o nível de desenvolvimento do indivíduo.

A perturbação deve durar por um período de pelo menos 4 semanas (Critério B), iniciar antes dos 18 anos (Critério C) e causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, acadêmico (ocupacional) ou outras áreas importantes na vida do indivíduo (Critério D).

O diagnóstico não é feito se a ansiedade ocorre exclusivamente durante o curso de um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, Esquizofrenia ou outro Transtorno Psicótico, ou, em adolescentes ou adultos, se é melhor explicada por Transtorno de Pânico Com Agorafobia (Critério E).

Os indivíduos com este transtorno podem experimentar sofrimento excessivo recorrente, quando da separação de casa ou de figuras importantes de vinculação (Critério A1). Quando separados dessas figuras de vinculação, freqüentemente precisam saber de seu paradeiro e sentem necessidade de permanecer em contato (por ex., através de telefonemas).

Alguns indivíduos sentem saudade extrema e chegam a sentir-se enfermos devido ao desconforto, se estão longe de casa. Eles podem ansiar pelo retorno ao lar e fantasiar acerca da reunião com as figuras de vinculação. Ao serem separados das figuras principais de vinculação, esses indivíduos freqüentemente abrigam temores de que acidentes ou doenças acometam as figuras a quem têm apego ou a eles próprios (Critério A2).

As crianças com este transtorno freqüentemente expressam o medo de se perderem e jamais reverem seus pais (Critério A3). Elas em geral sentem desconforto quando viajam independentemente para longe de casa ou de outras áreas que lhes são familiares, podendo evitar de ir a qualquer lugar sozinhas. Pode haver relutância ou recusa a comparecer à

escola ou acampamentos, visitar ou pernoitar em casa de amigos, ou sair para cumprir pequenas incumbências (Critério A4).

Essas crianças podem ser incapazes de permanecer em um quarto sozinhas, podem exibir um comportamento "adesivo" e andar "como uma sombra" atrás dos pais, por toda a casa (Critério A5).

As crianças com este transtorno com freqüência têm dificuldades para dormir e podem insistir para que alguém permaneça a seu lado até adormecerem (Critério A6). Durante a noite, podem ir à cama dos pais (ou de outra pessoa significativa, como um irmão); se o ingresso ao aposento dos pais é impedido, podem dormir junto à porta.

Também pode haver pesadelos cujo conteúdo expressa os temores do indivíduo (por ex., destruição da família por fogo, assassinato ou outra catástrofe) (Critério A7). Queixas somáticas, tais como dor abdominal, dor de cabeça, náusea e vômitos são comuns, quando a separação ocorre ou é prevista (Critério A8). Sintomas (Critério A8).

Sintomas cardiovasculares, tais como palpitações, tontura e sensação de desmaio iminente, são raras em crianças menores, mas podem ocorrer em indivíduos mais velhos.

Especificador

Início Precoce. Este especificador pode ser usado para indicar o início do transtorno antes dos 6 anos de idade.

A criança assim como o adulto precisa ser escutada para ser compreendida. A ansiedade diminui quando a criança começa a falar sobre seus medos e anseios, iniciando um entendimento sobre seus sentimentos e emoções que por não saber do que se trata dão lugar a ansiedade que acaba por imobilizar a criança, incapacitando-a temporariamente de buscar independência e ser feliz.

Ana Carlênia Oliveira Bastos.

terça-feira, 7 de julho de 2020

“Divertida/mente”.




O filme da Pixar explica de forma lúdica e criativa o papel das emoções e das memórias na formação psíquica e na personalidade de Riley, uma pré-adolescente de onze anos,mostrando de dentro para fora o trabalho das emoções para encontrar um equilíbrio frente às adversidades que a vida impõe.
Abordando temas psicanalíticos como sonhos, inconsciente,luto e o papel da tristeza como emoção básica necessária na constituição do sujeito.

O nascimento de Riley se dá pelo desejo e alegria de seus pais. Sabemos que quando os pais possuem desejos de alegria e amor, que são relatados muitas vezes antes de sua concepção, faz diferença na vida de cada sujeito que nasceu porque foi desejado por outro,para o bem ou para o mal. No caso de Riley, foi desejada e recebida com alegria pelos pais ( a sala de controle dentro do cérebro da menina é comandada primeiramente pela alegria).

As outras emoções vão chegando sem muita demora, a alegria passa a ter a companhia da tristeza, da raiva, do medo e o “nojo”. Emoções que são a base que possibilita a menina compreender a si mesma e aos outros. Assim ela vive seus onze anos em relativo conforto emocional ( pais,casa, escola,amigos). As emoções intercalam-se, ora no controle, ora como pano de fundo.

Tudo vai bem até a mudança da família para outra cidade (casa velha ,escola nova,sem amigos, professor diferente,não pratica mais esporte).

Para Riley,ficou difícil enfrentar essa nova realidade ( castração frente à impossibilidade de fazer o que quer/limite imposto). Dentro do cérebro na sala de controle as emoções não conseguem lidar com a avalanche de sentimentos, em busca de equilíbrio , todos querem ficar no controle, a tristeza é afastada pela alegria, a raiva estando no controle, Riley briga com o pai. O medo do futuro a deixa insegura, começa a duvidar de sua capacidade no esporte que tanto gosta (fato comum quando o sujeito perde a “estabilidade” de um futuro planejado,próprio da  neurose nossa de cada dia. O novo passa a ser temido ou rechaçado).

A tristeza começa a nublar as lembranças de momentos felizes, para a garota é “como se” não tivesse boas lembranças (luto que se faz necessário , mesmo que nublando temporariamente os momentos felizes do passado com saudade e nostalgia).

A alegria corre e retira a tristeza dessas memórias, acreditando que faz bem a menina sentir felicidade todo o tempo. Nessa luta, as duas se perdem em outras áreas do cérebro, lá elas encontram o Bing Bong, amigo imaginário da infância da garota que agora na sua pré adolescência não lembra mais dele, visto que com a passagem do complexo de Édipo seu interesse por um amigo imaginário passou a ser o interesse por um menino real, um sentimento platônico que está guardado nas memórias .

Bing Bong se encontra triste por não ser lembrado, a tristeza chega perto e o abraça, fala que entende o que ele está sentindo, o elefante sente conforto nesse abraço com a tristeza. A alegria nada pôde fazer nesse momento e fica apenas observando ( às vezes precisamos por alguns instantes abraçar a tristeza para seguirmos em frente e enfrentar os problemas).

Nesse caminho pelo cérebro, elas embarcam no trem do sonho ( bem freudiano ), lá encontram cenas diversas sendo representadas por personagens,  os sonhos possuem conteúdos  diurnos e recalcados ( ex: o medo que a dominou em sala de aula mais cedo, representado com exagero no sonho).

Em outros momentos,as duas entram  no inconsciente escuro e estranho a elas , que mesmo morando no cérebro não possuíam conhecimento dessa área.

Com as frustrações de Riley aumentando, as ilhas também vão se desintegrando.
A alegria e a tristeza juntas buscam uma saída, nesse meio tempo a menina pensa em fugir de casa, voltar a cidade e a vida que tinha antes. A alegria volta a sala de controle e a menina desiste de fugir e volta para casa, lá encontra seus pais e finalmente fala sobre seus sentimentos, seus pais também não estão felizes mas buscam se adaptar à nova situação. Mesmo triste, Riley sente conforto e proteção, a ilha da família se estrutura novamente.
A alegria entendeu que é preciso sentir tristeza,falta, passar pela perda, fazer o luto para depois seguir em frente. Deixar a tristeza controlar um pouco.

Nessa busca incansável pela satisfação plena, na crença que tudo é possível, não existindo lugar para a solidão ou a tristeza como furo estrutural do sujeito,  é  uma alegria encontrar um filme para crianças pequenas que fale sobre as emoções, dando lugar e importância a todas elas.

Por Ana Carlênia Oliveira
Psicanalista.

sexta-feira, 3 de julho de 2020




Depressão é o nome contemporâneo para os os sofrimentos decorrentes da perda de lugar do sujeito junto a versão imaginária do Outro.

Lacan relaciona a depressão a uma posição específica do sujeito, dimensão subjetiva, culpa por ceder em seu desejo. Desejo em psicanalise é por definição, o inconsciente e seu objeto perdido.

Depressivo é aquele que se deixa cair.
O desencadeamento do estado depressivo, provocado pela perda daquilo que sustenta, para o sujeito, o seu ideal do eu, tem como efeito uma perda do eu, empobrecimento da libido do eu.

Maria do Carmo Mucciolo