YES Blog da Escuta

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Depressão – De qual sofrimento estamos falando ?



Depressão
De qual sofrimento estamos falando?
Segundo a Organização Mundial de Saúde OMS (World Helth Organization) a Depressão afeta mais de 350 milhões de pessoas no mundo e os dados que esse órgão acreditava que iria ser atingido em 2030, com a previsão de atingir 9,8% do total de vida saudável perdidos para essa doença, alarmantemente, foi atingido em 2010. Vinte anos antes do previsto (Folha de S. Paulo dezembro de 2014 com reportagem de Rodolfo Lucena e Mariana Versolato).
Sendo a doença que mais incapacita no mundo, esses dados merecem que prestemos mais atenção! Pois milhões de vidas são atingidas e ou interceptadas, uma vez que o número de suicídios decorrente desse estado de sofrimento é muito grande. Principalmente entre adolescentes.
Mesmo com toda a informação disponível nos mais diversos meios de comunicação, não é incomum que ainda encontremos muitos pré-conceitos, e uma outra informação muito importante é que nem todo sofrimento psíquico é Depressão. Entretanto, precisa sim que se preste atenção aos estados de sofrimentos de cada sujeito. Em vez de minimizá-los e interpretá-los como um sofrimento menor do que o de uma doença orgânica e assim acreditar que o tempo irá curá-lo. É o contrário o que vemos acontecer, pois se o sujeito não procurar uma análise e não tratar seus sofrimentos, a consequência será a de um mal muito maior, como disse acima.
Hoje em dia temos um aumento de diagnósticos de Depressão, e se por um lado sabemos que mais pessoas tiveram acesso ao uso de planos de saúde, não devemos esquecer que existem também interesses econômicos envolvidos. Logo, o que encontramos muitas vezes são interpretações equivocadas que atribui o estado de depressão a um resultado somente da alteração bioquímica do cérebro, deixando de lado o fato de que somos seres falantes, portanto, afetados pelo que dizemos, sentimos, pensamos e também pelo que calamos.
Não podemos reduzir o sofrimento, o mal-estar e as angústias, somente a um mal funcionamento dos neurotransmissores do cérebro, pois isso nos reduzem a ser um animal. Visto que, fazer isso é reduzir o ser falante a um corpo orgânico. E reduzi-lo a um corpo, é deixar de fora sua condição humana, condição de ser falante, a de ter um corpo e não sê-lo (como aprendemos com o psicanalista JacquesLacan), a de ser responsável pelo que lhe acontece. E quando isso é retirado do sujeito, seu sofrimento é reduzido a um mal funcionamento neurobiológico e não a um sofrimento psíquico que afeta seu corpo!
Precisamos fazer uma conta rápida: quanto mais as pessoas rechaçam o fato de que por serem falantes são afetadas pelo que dizem, quanto mais esquecem que são seres de linguagem, mais se reduzem a um corpo e mais adoece!
Dessa forma, o sujeito não é mais responsável por seu destino, ele é uma “marionete” dele e de seu corpo adoecido e enlouquecido pela sua fala e seus afetos.
A Depressão é resultado do sofrimento do ser falante, de como cada um é atingido por sua história familiar e por seu inconsciente, por perdas e lutos que não foram elaborados: separações, “perda” da infância, da adolescência, morte de ente queridos, o fato de ceder o seu desejo, culpas inconscientes…
 E o inconsciente afeta diretamente o corpo!
É comprovado que as novas medicações trazem resultados como uma alteração químico-cerebral que ajuda alguns pacientes a se sentirem melhor, a produzir serotonina e sair da depressão profunda, mas se esse sujeito não fizer psicanálise, não procurar falar sobre seu sofrimento, não poderá trabalhar as causas que o levaram a depressão ou a outra forma de sofrimento psíquico.
Existem pacientes com o diagnóstico de depressão que tomam medicações, e alguns há muito tempo e não melhoram. E não melhoram, porque não falam sobre o que sentem, nesse caso a medicação tem o efeito de amordaçar o sujeito. Pois, a culpa inconsciente, a angústia, insatisfação ou a capacidade de fazer escolhas para ter saúde e felicidade, não está inscrita nos genes nem na neuroquímica do cérebro e sim na escolha ética de cada um, em se fazer responsável pelo que deseja, diz e sente.
É muito claro que os pacientes diagnosticados com depressão, tem problemas em desejar, pois cederam tanto, foram pessoas que deixaram “para depois” o que queriam, que chegam ao ponto de não terem forças físicas para levantar da cama.
Andreneide Dantas
#depressão #apatia #tristeza #doença inconsciente

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Um abismo de tristeza- Depressão

             

Para começar, quero fazer uma distinção entre a tristeza e a depressão.
O que é tristeza? É um estado de desalento, falta de alegria, infelicidade, lástima, etc.
E na depressão o que ocorre?
Ora, do que temos escutado, lido ou assistido, a Depressão é um estado clínico onde encontramos uma tristeza. Mas não é somente tristeza, mas uma falta de energia, falta de desejo muito grande e uma abulia que impede o sujeito de desenvolver normalmente suas atividades: como trabalhar, namorar, comer, conversar com amigos, desempenhar suas tarefas costumeiras e até aquelas que lhe davam prazer. Dorme mal ou dorme muito. Na verdade, as que lhe davam prazer já tinham abandonado bem antes....
A maioria das vezes esses pacientes chegam até nós quando já estão fazendo um tratamento medicamentoso. As miligramas de Prozac ou Fluoxetina já fazem parte do cotidiano desse paciente e mesmo assim a estabilização da substância – Serotonina – (que atua no cérebro e é responsável pelas sensações de “alegria”, estados afetivos, humor) não tem proporcionado que encontre ânimo ou desejo para tocar sua vida. (hoje já existem outras medicações)
Para nós, é claro que não é a serotonima o que que vai proporcionar com que o paciente deixe de ser miseravelmente infeliz. Mesmo que haja a necessidade de que tenha uma determinada quantidade de substância para que seu cérebro funcione.
Sabemos que não é somente a química cerebral que é responsável pelo bem ou mal-estar do paciente. Mesmo com toda a eficácia medicamentosa e progresso da ciência não existe um medicamento que faça o falante ser feliz, que o faça ter desejo. É verdade que para alguns pacientes a única possibilidade que ele tem de levantar da cama ou de não se matar e vir até o consultório, é tomando um medicamento que altere seu humor, que trabalhe na produção da substância – serotonina – que ele não está fabricando. Mas a ciência nada quer saber desse paciente, sobre seu particular, sua história, trata-o como puro órgão e esse é seu material de estudo (*frase acrescentada em 3/10/2017)
Aprendemos com Freud e Lacan que o significante afeta o corpo, e na depressão afeta o funcionamento ou a produção de serotonina. Somente quando o paciente produz outros significantes é que pode alterar seu estado afetivo ou até o funcionamento de um órgão. Produz novos significantes e assim produz serotonina suficiente para alterar seu humor.
Somos nós, os psicanalistas que dedicamos nosso tempo à escuta da palavra a ser dita, da palavra sufocada, amordaçada.
É interessante lembrar que mesmo que o mais comum na depressão seja encontrarmos o sujeito em uma tristeza imensa, acontece em alguns que não exista sinal de tristeza. Existe mais uma abulia, onde os pacientes descrevem com pormenores sua falta de desejo em levantar, trabalhar, conversar, namorar, etc. Parece contraditório isso, se no título do meu trabalho falo de um abismo de tristeza, nem sempre é assim.  Mas o mais comum é o sinal muito grande de tristeza, ou algo que não pode ser nomeado pelo sofredor.
O discurso do “deprimido” é repetitivo, monótono, mas, algumas vezes sem sinal de tristeza, e até com ausência de choro.. Eles falam de uma falta de sentido em suas vidas, independente do dia e ocasião, se faz sol ou chove., se conseguiu algo ou perdeu. Muitas vezes a depressão e instalada quando o paciente ganhou uma promoção ou teve um filho.
Encontramos pacientes que falando de seus sofrimentos, descrevem o que acontecem com seu corpo, corpo biológico, corpo este, que em suas falas não é apreendido como próprio, mas, como um conjunto de órgãos, onde o sujeito não se vê responsável por ele. Ex: Paciente que sabia dos detalhes do funcionamento de seus órgãos. E dizia: o coração, o peito etc.
É na falta de palavras que a depressão encontra sua existência. Podemos considerar a depressão como um mal-estar da civilização. E porque tantos casos? A Organização Mundial de Saúde acredita que até 2020 será a segunda moléstia que mais matará.
Mas, mesmo que no início o paciente não saiba ou não diga porque está assim, deprimido, encontramos sempre um acontecimento, algo que sucedeu anteriormente ao estado de depressão.
Numa época como a nossa, que é marcada por avanços tecnológicos e científicos, onde podemos contar com a possibilidade de dar uma conferência aqui no Brasil e sermos escutados e vistos no outro lado do mundo, onde alguns acreditam em aproximação entre os falantes, o que encontramos são pessoas solitárias, que dizem não ter com quem fazer laços ou que acreditam que não precisam falar com os outros. Onde não têm tempo para conversar, escutar o outro, rir e até chorar quando preciso. A era da globalização faz com que os homens se aproximem dos objetos, separando-se dos semelhantes, onde anulam a questão do desejo.
O paciente deprimido renuncia a seus desejos mais íntimos, cede frente ao seu desejo, adia, deixa para lá, deixa para depois. E essa renúncia é para manter um Outro sem falta.
Lacan fala de tristeza na depressão, de covardia moral, citando Spinosa e Dante onde há um rechaço do inconsciente, rechaço da linguagem, em Televisão.
E diz ainda, que essa covardia só se situa a partir do pensamento do dever do bem –dizer ou da orientação no inconsciente, na estrutura. Trata-se portanto, de que o sentido para a tristeza ou para qualquer outro estado afetivo seja o tratamento da ética do bem dizer, através da análise.
Para o ser falante a vida é uma vida que tem sentido, mas só tem, se ele a der e para o sujeito que está deprimido ela está esvaziada do mesmo.
Eles tem dificuldades para encadear uma frase, para prosseguir. Interrompem a frase, para, tem dificuldade para falar e para agir.
É verdade que existe uma alteração biológica, mas essa, é provocada por uma falha simbólica. E também sabemos o quanto alivia a dor certas palavras. Elas tanto podem aliviar a dor quanto sua falta ser um amortecedor, a –morte- ser-dor.
Aprendemos que é a a experiência com o outro o que pode imprimir e marcar o terreno biológico, alterando a produção de uma substância – Serotonina ou de um órgão – por exemplo a Tiróide. É claro que o que faz uma criança andar não é somente seu amadurecimento neurológico e ortopédico, mas o fato de que aliado a isso tenha lugar no desejo dos pais para que ela ande.
A análise possibilita o encadeamento significante, proporcionando um luto. Luto da coisa. Mas por muitas vezes o deprimido não quer separar-se do Outro, não quer abrir mão do “inferno” em que vive. Não quer, por que não consegue...
Entre ele e os objetos se instala um abismo, uma impossibilidade de fazer encadeamentos significantes. Alguns pacientes descrevem seu cotidiano como um “arrastar-se” para fazer suas atividades.
Para concluir, temos na explicação médica que a depressão é causada pela baixa produção de serotonina, substância responsável pelo humor. E também uma das causas apontadas e motivo de indicações por parte dos psiquiatras é o mal funcionamento da tiróide, onde produz menos T4 ou T3 ou ainda a própria tiróide, ataca os anticorpos destruindo-os. Aqui o sujeito é reduzido a um corpo, ou melhor a um corpo despedaçado.
Mas sabemos que não se trata somente de uma disfunção cerebral, mas se trata na depressão da forma como cada um encara sua vida, como se relaciona em relação ao mal-estar na civilização. E para que cada um se dê conta disso e dê conta de seu desejo é imprescindível que fale a um outro, a um analista para encontrar-se e descobrir-se no que diz, fazendo de sua palavra um bem alivia- a- dor. Existem os que podem fazer essa escolha e os que escolhem –mas sabemos que essa escolha não é consciente – viver acreditando que não tem nada a dizer sobre seu sofrimento...
Para os que escolhem saber o que lhes acontece os analistas oferecem sua escuta. Escuta da dor de existência.

Andreneide Dantas, Agosto de 2003
Trabalho apresentado na Jornada do Rio de Janeiro “Os afetos na vida cotidiana”
Escola da Causa Analítica – RJ
Tel: (0xx21) 2236-0563

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Psicanálise com crianças - Entrevista escrita (Parte 2)



Psicanálise com Crianças
(parte 2)





4. Quais queixas são mais comuns?

As queixas mais comuns, são as dificuldades escolares: desde a troca de letras, atraso no aprendizado a repetência; dificuldades de relacionamentos com colegas, agressividade consigo e com os outros, hiperatividade, “déficit de atenção”, inibições, etc. Situações que atrapalham o desenvolvimento da criança tanto físico quanto intelectual.  E o que se revela na análise é que essas dificuldades encobrem outras, que vão surgindo durante o tratamento. A medida que o tratamento transcorre, vemos qual é a posição que a criança ocupa na família, como está posicionado o casal de pais, o que eles esperam desse filho, como a criança se vê, sua relação com irmãos. etc....


5. Existem doenças (bronquites, rinites, doenças de pele, diabetes, asmas, otites..) que mesmo a criança  sendo atendida e tratada com medicamentos os resultados não são satisfatórios, essas crianças se beneficiariam do tratamento psicanalítico?

Certamente. Tenho a experiência de atender crianças que tinham repetidas crises de bronquites, alergias e asma, faziam tratamentos medicamentosos, porém apresentavam uma melhora pequena, inclusive eram constantemente internadas de tão graves que eram as crises. Através da análise puderam falar sobre o que lhes aconteciam na família e na escola e aos poucos foram representando seu corpo de outra forma. Antes eram medicadas, examinadas e não tinham a chance de falar sobre o que sentiam em relação a tudo isso.

6. Quando os pais e professores, precisam procurar e indicar um tratamento psicanalítico para o filho ou aluno?

Sempre que perceberem que algo não "anda bem" com a criança: ou porque estão muito agressivas, não conseguem aprender, ficam constantemente doentes, não falam, ou demoram para falar e ou andar, tem distúrbios alimentares, não se socializam, apresentam medos acima do normal, enurese, encoprese, etc.

7.   Porque muitas crianças agressivas e hiperativas tomam medicamentos?

É comum encontramos nos dias de hoje, muitas crianças com esses diagnósticos, porém precisamos ter muito cuidado, pois nem toda criança que é irrequieta ou agressiva tem hiperatividade. Ás vezes as crianças não tem disciplina, os limites não estão bem estabelecidos. Como consequência elas ficam “perdidas” sem saber o que fazer ou a quem recorrer. É importante que essas questões não sejam confundidas com problemas neurológicos. Portanto, é imprescindível um diagnóstico bem feito, para que a criança tenha a oportunidade de fazer o tratamento adequado.

8. Se uma criança com essas dificuldades não forem atendidas adequadamente, quais a s consequências futuras?

As consequências de um diagnóstico errado, acarreta em tratamentos inadequados, onde a criança tomará um medicamento desnecessário que não resolverá o problema e ainda, terá efeitos colaterais e sofrimentos que poderiam ser evitados. Isso pode fazer com que a criança tenha seu desenvolvimento físico, intelectual e psicológico prejudicados.

9.  É possível que quem precise do tratamento sejam os pais e não o filho?

Sim, ás vezes os pais nos procuram para atendermos seus filhos e o que precisam realmente, é de orientação ou de análise. Pois sabemos que não é fácil exercer a função de mãe e de pai, ainda mais, em um mundo como o de hoje, onde à maioria das pessoas não se dão tempo para saber o que desejam; existem todas as ofertas do mercado, os imperativos de uma felicidade extrema, de um consumo desenfreado, onde fica “proibido” por alguns discursos, que os pais frustrem seus filhos!


Existe quase um “dever” na conjuntura atual, de que os pais deem “tudo” o que seus filhos pedem, e isso é uma loucura, que só poderá trazer sofrimentos e prejuízos, tanto para os filhos quanto para os pais.

10.  Podemos concluir que o tratamento psicanalítico é muito importante na infância?


Correto, quando uma criança tem a oportunidade de fazer análise, coloca para trabalhar seu inconsciente e isso a ajudará a resolver as questões psicopatológicas que estão impedindo-a de crescer, que podem ser decorrentes de traumas sofridos, de demandas contraditórias de seus pais, conflitos com irmãos, sofrimentos com alguma doença orgânica recorrente, etc. E a análise lhe possibilitará desenvolver recursos psíquicos, para enfrentar as situações de sua vida e isso, as ajudará a atravessar uma adolescência sem grandes conflitos - salvos os que são comuns a essa fase - e assim poderão ter uma vida mais equilibrada e saudável. 

E não é somente a criança que se beneficia da análise, pois os pais também são tocados por essas mudanças. O analista também os escutam, mas não pode confundir o lugar de um e de outro.



* Primeira parte publicado 12/03/2014
#psicanálisecomcrianças #psicoterapia #crianças #doençasrepetitivas #psicoterpiainfantil

Andreneide Dantas   (21/11/16)
Psicanalista 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Os Laços entre a Motricidade e o Inconsciente

Os laços entre a Motricidade e o Incosnciente

A psicomotricidade será abordada nesse trabalho, a partir da visão da psicanalista Françoise Dolto, que mostra com bastante clareza em seus casos clínicos, a diferença entre Imagem Inconsciente do Corpo e Esquema Corporal, relatando o quanto a motricidade pode ser inibida ou prejudicada a partir do direcionamento inconsciente de cada sujeito.
  
Os casos clínicos relatados por ela em seu livro “A imagem inconsciente do corpo”, retrata a história de crianças saudáveis quanto a seu esquema corporal, estando o funcionamento deste, comprometido por imagens patogênicas do corpo. A motricidade aqui está ligada ao sintoma pelo seu fantasma.


Esquema Corporal e Imagem do Corpo

O esquema corporal é uma realidade, um corpo orgânico, semelhante em todos da espécie humana. O corpo orgânico é um medi/a/dor (lê-se mede a dor) que se organiza de acordo com as relações que o sujeito adquire com o contato com os outros. Inicialmente seus pais, ou cuidadores e posteriormente com o mundo e suas relações sociais.

Na condição de mediador, o esquema corporal está ligado ao consciente do sujeito, sujeitando-se a corresponder aos fantasmas inconsciente de cada um. Dessa forma é possível que a pessoa tenha um esquema corporal em bom estado, desprovido de lesões, mas sua utilização funcional subjugada é correspondente a uma imagem do corpo perturbada, adoecida, invalidando o funcionamento saudável do corpo.

É comum também que o esquema corporal enfermo coabitem com uma imagem do corpo sã. Uma criança acometida de paralisia muscular mas não sensitiva, tendo ocorrido a doença após a idade de três anos, onde ela já havia começado a andar e adquirir a continência esfincteriana, seu esquema corporal mesmo atingido pela paralisia, pode permanecer com a imagem do corpo saudável. Como nos mostra os desenhos dessas crianças ou quando elas se imaginam correndo e pulando em suas histórias relatadas aos pais ou analistas. Projetando em sua verbalização uma imagem do corpo compatível com o período antes da doença, simbolizada  em suas palavras.


A imagem do corpo ao contrário do esquema corporal é específica de cada ser humano, está ligada a este, e a sua história pessoal, sua ligação se faz diretamente com o inconsciente, exprimindo-se quando associada à linguagem consciente, utilizando metáforas e metonímias que se referem a essa imagem do corpo. Quando não expressadas através da linguagem verbalizada, podem expressar-se com a linguagem do próprio corpo.

A imagem do corpo é resultado de nossas experiências emocionais. “Ela pode ser considerada como a encarnação simbólica inconsciente do sujeito desejante.”
( Françoise Dolto , pg 15.).

A imagem do corpo é uma memória inconsciente e atual de todas as nossas vivências reais ou imaginárias.

Caso Clínico 

Um rapazinho, estudante da oitava série, com quatorze anos, aluno brilhante, porém “muito nervoso”, me foi trazido para uma consulta: queixam-se na escola de que ele dá pontapés compulsivos nas carteiras, até despregá-las do chão. A mãe que acompanha o filho, também apresenta as pernas machucadas, ulceradas ao nível das tíbias. Além das pernas, ela me conta que são igualmente visados por esta ação insólita, o pé da cama conjugal do lado onde ela se deita, assim como o pé da mesa familiar do lado onde costuma sentar-se.

Por ocasião deste primeiro contato, a única coisa que o menino pôde dizer de seu procedimento, foi: “eu não posso agir diferentemente, é mais forte do que eu... – Mas, como explica que você vise sempre, com este ato, sua mãe e não seu pai?  - Eu não sei, não faço de propósito”.

Dizendo não saber desenhar, escolhe a massa de modelar e constrói um poço à antiga, reproduzindo de modo muito artístico. Observo nesse momento: “um poço, o que você poderia dizer disso? – Bem, tem água no fundo, é um poço de uma época antiga, agora, não há mais poço. –Sim. O que mais se diz ainda, por vezes que se esconde no poço? ” E juntos acabamos, assim, falando do poço e da verdade nua que se supõe poder sair dali. Terminada a sessão, ao tratarmos do encontro seguinte, o rapazinho, apesar de parecer desembaraçado me diz: “Ah, é preciso perguntar à mamãe. – Porque perguntar à sua mãe, você mesmo não sabe de seus dias livres? –Não, é preciso perguntar à mamãe.

A mãe entra e senta-se à esquerda do filho. Enquanto me fala dos dias possíveis para as sessões seguintes, o rapazinho pega na mão esquerda a mão direita da mãe e conduz o indicador dela a acariciar o interior do poço modelado, sem que ela, que continua a falar comigo, pareça se dar conta do fato. Em vez de deixá-lo sair com a mãe, digo a ela: “ a senhora poderia esperar um pouco, quero conversar ainda com o seu filho”. Ela sai e eu pergunto ao garoto: “ o que quer dizer o gesto que você fez com o indicador de sua mãe na modelagem? –Eu? Como? Eu não sei...”(ele parecia surpreso e até mesmo aturdido). Ele responde, pois, como se houvesse esquecido, como se não tivesse se dado conta de nada. Eu lhe descrevo então o que o vi fazer. E acrescento: “ em que P faz pensar, o dedo de sua mãe, no buraco deste poço? –Bem.... Eu não posso ir ao banheiro, mamãe não me permite ir ao banheiro do colégio porque é preciso que ela veja, que ela controle sempre o meu cocô. –Porque? Você tem desarranjos intestinais faz muito tempo? –Não, mas ela quer, e ela me faz cenas se faço cocô no colégio. –Vá buscar sua mãe “.

A mãe retorna, e fica confirmado que ela, tampouco havia notado o jogo com seu dedo no poço. Eu lhe digo que o filho (sempre presente) me falou da necessidade que ela tinha de verificar seus excrementos. “Bem, senhora, não é o dever de uma mãe verificar o bom funcionamento do corpo de seus filhos? Mesmo ao meu filho mais velho (um moço de vinte e um anos), eu massageio o ânus a cada vez que ele evacua. – Ah, sim e porquê? – Foi o médico que me mandou fazer isto. Quando meu filho mais velho tinha dezoito meses, teve prolapso do reto, e o doutor me disse que eu lhe massageasse o ânus após cada evacuação, para fazer entrar este prolapso.
  
Foi em torno deste problema que se organizou, com a pré-puberdade, a doença, pretensamente nervosa, deste garoto de quatorze anos, cuja mãe não suportava que seu funcionamento vegetativo se tornasse autônomo.

O Garoto traduzia, assim, seu ciúme com respeito ao irmão mais velho, que tinha direito as prerrogativas da massagem anal da mãe, enquanto que a ele a mãe impunha apenas um controle visual dos excrementos: a ele, que não tivera a “sorte” de ter um prolapso no reto quando pequeno.

O poço era a projeção de uma imagem parcial do corpo anual; ele representava o reto do garoto, o qual associava a verdade da sexualidade do corpo da mulher ao gozo do excremento. Ele permanecera, em suma, em uma sexualidade anal fixada como tal pelo desejo perverso de uma mãe inocentemente incestuosa em relação aos filhos, sob a cobertura da medicina e do “dever” de uma mãe no tocante ao “bom funcionamento” do corpo objeto de seus filhos.

Este fato permite compreender também o significado do sintoma motor de agressão por pontapés. A motricidade que, na medida em que adaptada à sociedade, é uma expressão do prazer anal sublimado, estava, neste garoto, alterada. Seus dois membros inferiores chegavam ali e agiam em seu sintoma como substituto do terceiro membro inferior: o membro peniano. É com o pé que ele batia nas pernas da mãe, por não poder penetrar em sua vagina com o pênis.

Vemos, enfim, como se dava o jogo de rivalidade com o seu irmão mais velho, um primogênito que só de maneira imperfeita podia constituir a figura do “Eu” Ideal, sendo mais um modelo regressivo cujo lugar, o mais novo, tal como um bebezinho, gostaria de tomar.

Conclusão:

Somos formados por um esquema do corpo que para se sustentar e comunicar-se com os outros, possui o suporte da imagem do corpo, nessa inter-relação é que temos a possibilidade de estar no mundo e nos situarmos em cada situação do nosso cotidiano, de uma forma sadia ou sintomática, segundo a nossa história.

#motricidade #corpo #orgânico #simbólico #pontapés
Ana Carlênia Oliveira Bastos.
Psicanalista.

Referência bibliográfica:


Dolto, Françoise A IMAGEM INCONSCIENTE DO CORPO.  Ed. Perspectiva, coleção: Estudos

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Hiperatividade

HIPERATIVIDADE

Uma criança é sempre pré-matura ao nascer quando comparada ao outros mamíferos, pois depende totalmente de um Outro para desenvolver-se física e psiquicamente.

A imagem que ela tem de seu corpo também depende dessa relação com esse Outro que cuidou, banhou, alimentou e principalmente, falou com ela.

Esses primeiros tempos de vida imprimirá marcas em seu corpo e em seu psíquico, que afetará a todas as suas relações posteriores.

Portanto, a organização dela quanto ao tempo e espaço tem relação com a imagem que ela tem de si mesma, que por sua vez, depende da relação que ela teve e tem com quem cuidou e cuida dela.

Seu aquietar-se também responde ao discurso no qual ela está inserida, assim como o controle de suas pulsões agressivas.

Então, como podemos ler o que acontece quando elas não conseguem parar! 

Quando não conseguem ficar quietas ou quando são desafiadoras e não obedecem  regras e disciplinas?

Encontramos na atualidade por parte de muitos profissionais, uma resposta muitas vezes precipitada, que atribui o que acontece com elas a neuroquímica de seu cérebro em vez de investigar o que acontece nas suas relações familiares.

Quando elas não conseguem ter autocontrole é importante analisar o que acontece em seu entorno, para descobrir porque estão colocando em seu corpo o que deveriam estar colocando em palavras!  

É um erro grande atribuir tudo que acontece com elas ao seu biológico, deixando de fora sua singularidade e principalmente retirando delas a oportunidade de falarem.

O que podemos esperar quando retiramos do ser falante o que lhe é mais precioso: sua fala a respeito do que sente? 

- Um corpo "falante", que mostra o que não está podendo colocar em palavras!    

#hiperatividade #crianças #quieta #disciplina #escola #aluno

Andreneide Dantas (30/09/16)   

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Dizer "Não!"

Dizer "Não!"


Para que os pais possam dizer "não!" para um filho é preciso que esse "não!" primeiramente funcione para eles.
Quando não conseguem - por não contar com recursos - é necessário que busquem ajuda, pois seus filhos ficam sem uma contenção, como um "barco" sem direção!
É o que vemos acontecer nos dias atuais com a s crianças que não páram! Que dão muito trabalho na escola, que não respeitam os pais, professores... que batem, apanham, quando não conseguem lidar com frustrações e sofrem muito com isso.
É loucura do social acreditar que essas questões tem a ver com déficit orgânico e não com enfraquecimento das funções paterna e materna. Com o medo que algumas famílias sentem em impor autoridade, por equivocadamente confundirem com autoritarismo.
Os pais precisam impor limites!
Pois essa é também uma demonstração de amor.   
 
#dizer não! #limites #amor #filhos

Andreneide Dantas (22/09/16)