YES Blog da Escuta

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Psicanálise com crianças - Entrevista escrita (Parte 2)



Psicanálise com Crianças
(parte 2)





4. Quais queixas são mais comuns?

As queixas mais comuns, são as dificuldades escolares: desde a troca de letras, atraso no aprendizado a repetência; dificuldades de relacionamentos com colegas, agressividade consigo e com os outros, hiperatividade, “déficit de atenção”, inibições, etc. Situações que atrapalham o desenvolvimento da criança tanto físico quanto intelectual.  E o que se revela na análise é que essas dificuldades encobrem outras, que vão surgindo durante o tratamento. A medida que o tratamento transcorre, vemos qual é a posição que a criança ocupa na família, como está posicionado o casal de pais, o que eles esperam desse filho, como a criança se vê, sua relação com irmãos. etc....


5. Existem doenças (bronquites, rinites, doenças de pele, diabetes, asmas, otites..) que mesmo a criança  sendo atendida e tratada com medicamentos os resultados não são satisfatórios, essas crianças se beneficiariam do tratamento psicanalítico?

Certamente. Tenho a experiência de atender crianças que tinham repetidas crises de bronquites, alergias e asma, faziam tratamentos medicamentosos, porém apresentavam uma melhora pequena, inclusive eram constantemente internadas de tão graves que eram as crises. Através da análise puderam falar sobre o que lhes aconteciam na família e na escola e aos poucos foram representando seu corpo de outra forma. Antes eram medicadas, examinadas e não tinham a chance de falar sobre o que sentiam em relação a tudo isso.

6. Quando os pais e professores, precisam procurar e indicar um tratamento psicanalítico para o filho ou aluno?

Sempre que perceberem que algo não "anda bem" com a criança: ou porque estão muito agressivas, não conseguem aprender, ficam constantemente doentes, não falam, ou demoram para falar e ou andar, tem distúrbios alimentares, não se socializam, apresentam medos acima do normal, enurese, encoprese, etc.

7.   Porque muitas crianças agressivas e hiperativas tomam medicamentos?

É comum encontramos nos dias de hoje, muitas crianças com esses diagnósticos, porém precisamos ter muito cuidado, pois nem toda criança que é irrequieta ou agressiva tem hiperatividade. Ás vezes as crianças não tem disciplina, os limites não estão bem estabelecidos. Como consequência elas ficam “perdidas” sem saber o que fazer ou a quem recorrer. É importante que essas questões não sejam confundidas com problemas neurológicos. Portanto, é imprescindível um diagnóstico bem feito, para que a criança tenha a oportunidade de fazer o tratamento adequado.

8. Se uma criança com essas dificuldades não forem atendidas adequadamente, quais a s consequências futuras?

As consequências de um diagnóstico errado, acarreta em tratamentos inadequados, onde a criança tomará um medicamento desnecessário que não resolverá o problema e ainda, terá efeitos colaterais e sofrimentos que poderiam ser evitados. Isso pode fazer com que a criança tenha seu desenvolvimento físico, intelectual e psicológico prejudicados.

9.  É possível que quem precise do tratamento sejam os pais e não o filho?

Sim, ás vezes os pais nos procuram para atendermos seus filhos e o que precisam realmente, é de orientação ou de análise. Pois sabemos que não é fácil exercer a função de mãe e de pai, ainda mais, em um mundo como o de hoje, onde à maioria das pessoas não se dão tempo para saber o que desejam; existem todas as ofertas do mercado, os imperativos de uma felicidade extrema, de um consumo desenfreado, onde fica “proibido” por alguns discursos, que os pais frustrem seus filhos!


Existe quase um “dever” na conjuntura atual, de que os pais deem “tudo” o que seus filhos pedem, e isso é uma loucura, que só poderá trazer sofrimentos e prejuízos, tanto para os filhos quanto para os pais.

10.  Podemos concluir que o tratamento psicanalítico é muito importante na infância?


Correto, quando uma criança tem a oportunidade de fazer análise, coloca para trabalhar seu inconsciente e isso a ajudará a resolver as questões psicopatológicas que estão impedindo-a de crescer, que podem ser decorrentes de traumas sofridos, de demandas contraditórias de seus pais, conflitos com irmãos, sofrimentos com alguma doença orgânica recorrente, etc. E a análise lhe possibilitará desenvolver recursos psíquicos, para enfrentar as situações de sua vida e isso, as ajudará a atravessar uma adolescência sem grandes conflitos - salvos os que são comuns a essa fase - e assim poderão ter uma vida mais equilibrada e saudável. 

E não é somente a criança que se beneficia da análise, pois os pais também são tocados por essas mudanças. O analista também os escutam, mas não pode confundir o lugar de um e de outro.



* Primeira parte publicado 12/03/2014
#psicanálisecomcrianças #psicoterapia #crianças #doençasrepetitivas #psicoterpiainfantil

Andreneide Dantas   (21/11/16)
Psicanalista 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Os Laços entre a Motricidade e o Inconsciente

Os laços entre a Motricidade e o Incosnciente

A psicomotricidade será abordada nesse trabalho, a partir da visão da psicanalista Françoise Dolto, que mostra com bastante clareza em seus casos clínicos, a diferença entre Imagem Inconsciente do Corpo e Esquema Corporal, relatando o quanto a motricidade pode ser inibida ou prejudicada a partir do direcionamento inconsciente de cada sujeito.
  
Os casos clínicos relatados por ela em seu livro “A imagem inconsciente do corpo”, retrata a história de crianças saudáveis quanto a seu esquema corporal, estando o funcionamento deste, comprometido por imagens patogênicas do corpo. A motricidade aqui está ligada ao sintoma pelo seu fantasma.


Esquema Corporal e Imagem do Corpo

O esquema corporal é uma realidade, um corpo orgânico, semelhante em todos da espécie humana. O corpo orgânico é um medi/a/dor (lê-se mede a dor) que se organiza de acordo com as relações que o sujeito adquire com o contato com os outros. Inicialmente seus pais, ou cuidadores e posteriormente com o mundo e suas relações sociais.

Na condição de mediador, o esquema corporal está ligado ao consciente do sujeito, sujeitando-se a corresponder aos fantasmas inconsciente de cada um. Dessa forma é possível que a pessoa tenha um esquema corporal em bom estado, desprovido de lesões, mas sua utilização funcional subjugada é correspondente a uma imagem do corpo perturbada, adoecida, invalidando o funcionamento saudável do corpo.

É comum também que o esquema corporal enfermo coabitem com uma imagem do corpo sã. Uma criança acometida de paralisia muscular mas não sensitiva, tendo ocorrido a doença após a idade de três anos, onde ela já havia começado a andar e adquirir a continência esfincteriana, seu esquema corporal mesmo atingido pela paralisia, pode permanecer com a imagem do corpo saudável. Como nos mostra os desenhos dessas crianças ou quando elas se imaginam correndo e pulando em suas histórias relatadas aos pais ou analistas. Projetando em sua verbalização uma imagem do corpo compatível com o período antes da doença, simbolizada  em suas palavras.


A imagem do corpo ao contrário do esquema corporal é específica de cada ser humano, está ligada a este, e a sua história pessoal, sua ligação se faz diretamente com o inconsciente, exprimindo-se quando associada à linguagem consciente, utilizando metáforas e metonímias que se referem a essa imagem do corpo. Quando não expressadas através da linguagem verbalizada, podem expressar-se com a linguagem do próprio corpo.

A imagem do corpo é resultado de nossas experiências emocionais. “Ela pode ser considerada como a encarnação simbólica inconsciente do sujeito desejante.”
( Françoise Dolto , pg 15.).

A imagem do corpo é uma memória inconsciente e atual de todas as nossas vivências reais ou imaginárias.

Caso Clínico 

Um rapazinho, estudante da oitava série, com quatorze anos, aluno brilhante, porém “muito nervoso”, me foi trazido para uma consulta: queixam-se na escola de que ele dá pontapés compulsivos nas carteiras, até despregá-las do chão. A mãe que acompanha o filho, também apresenta as pernas machucadas, ulceradas ao nível das tíbias. Além das pernas, ela me conta que são igualmente visados por esta ação insólita, o pé da cama conjugal do lado onde ela se deita, assim como o pé da mesa familiar do lado onde costuma sentar-se.

Por ocasião deste primeiro contato, a única coisa que o menino pôde dizer de seu procedimento, foi: “eu não posso agir diferentemente, é mais forte do que eu... – Mas, como explica que você vise sempre, com este ato, sua mãe e não seu pai?  - Eu não sei, não faço de propósito”.

Dizendo não saber desenhar, escolhe a massa de modelar e constrói um poço à antiga, reproduzindo de modo muito artístico. Observo nesse momento: “um poço, o que você poderia dizer disso? – Bem, tem água no fundo, é um poço de uma época antiga, agora, não há mais poço. –Sim. O que mais se diz ainda, por vezes que se esconde no poço? ” E juntos acabamos, assim, falando do poço e da verdade nua que se supõe poder sair dali. Terminada a sessão, ao tratarmos do encontro seguinte, o rapazinho, apesar de parecer desembaraçado me diz: “Ah, é preciso perguntar à mamãe. – Porque perguntar à sua mãe, você mesmo não sabe de seus dias livres? –Não, é preciso perguntar à mamãe.

A mãe entra e senta-se à esquerda do filho. Enquanto me fala dos dias possíveis para as sessões seguintes, o rapazinho pega na mão esquerda a mão direita da mãe e conduz o indicador dela a acariciar o interior do poço modelado, sem que ela, que continua a falar comigo, pareça se dar conta do fato. Em vez de deixá-lo sair com a mãe, digo a ela: “ a senhora poderia esperar um pouco, quero conversar ainda com o seu filho”. Ela sai e eu pergunto ao garoto: “ o que quer dizer o gesto que você fez com o indicador de sua mãe na modelagem? –Eu? Como? Eu não sei...”(ele parecia surpreso e até mesmo aturdido). Ele responde, pois, como se houvesse esquecido, como se não tivesse se dado conta de nada. Eu lhe descrevo então o que o vi fazer. E acrescento: “ em que P faz pensar, o dedo de sua mãe, no buraco deste poço? –Bem.... Eu não posso ir ao banheiro, mamãe não me permite ir ao banheiro do colégio porque é preciso que ela veja, que ela controle sempre o meu cocô. –Porque? Você tem desarranjos intestinais faz muito tempo? –Não, mas ela quer, e ela me faz cenas se faço cocô no colégio. –Vá buscar sua mãe “.

A mãe retorna, e fica confirmado que ela, tampouco havia notado o jogo com seu dedo no poço. Eu lhe digo que o filho (sempre presente) me falou da necessidade que ela tinha de verificar seus excrementos. “Bem, senhora, não é o dever de uma mãe verificar o bom funcionamento do corpo de seus filhos? Mesmo ao meu filho mais velho (um moço de vinte e um anos), eu massageio o ânus a cada vez que ele evacua. – Ah, sim e porquê? – Foi o médico que me mandou fazer isto. Quando meu filho mais velho tinha dezoito meses, teve prolapso do reto, e o doutor me disse que eu lhe massageasse o ânus após cada evacuação, para fazer entrar este prolapso.
  
Foi em torno deste problema que se organizou, com a pré-puberdade, a doença, pretensamente nervosa, deste garoto de quatorze anos, cuja mãe não suportava que seu funcionamento vegetativo se tornasse autônomo.

O Garoto traduzia, assim, seu ciúme com respeito ao irmão mais velho, que tinha direito as prerrogativas da massagem anal da mãe, enquanto que a ele a mãe impunha apenas um controle visual dos excrementos: a ele, que não tivera a “sorte” de ter um prolapso no reto quando pequeno.

O poço era a projeção de uma imagem parcial do corpo anual; ele representava o reto do garoto, o qual associava a verdade da sexualidade do corpo da mulher ao gozo do excremento. Ele permanecera, em suma, em uma sexualidade anal fixada como tal pelo desejo perverso de uma mãe inocentemente incestuosa em relação aos filhos, sob a cobertura da medicina e do “dever” de uma mãe no tocante ao “bom funcionamento” do corpo objeto de seus filhos.

Este fato permite compreender também o significado do sintoma motor de agressão por pontapés. A motricidade que, na medida em que adaptada à sociedade, é uma expressão do prazer anal sublimado, estava, neste garoto, alterada. Seus dois membros inferiores chegavam ali e agiam em seu sintoma como substituto do terceiro membro inferior: o membro peniano. É com o pé que ele batia nas pernas da mãe, por não poder penetrar em sua vagina com o pênis.

Vemos, enfim, como se dava o jogo de rivalidade com o seu irmão mais velho, um primogênito que só de maneira imperfeita podia constituir a figura do “Eu” Ideal, sendo mais um modelo regressivo cujo lugar, o mais novo, tal como um bebezinho, gostaria de tomar.

Conclusão:

Somos formados por um esquema do corpo que para se sustentar e comunicar-se com os outros, possui o suporte da imagem do corpo, nessa inter-relação é que temos a possibilidade de estar no mundo e nos situarmos em cada situação do nosso cotidiano, de uma forma sadia ou sintomática, segundo a nossa história.

#motricidade #corpo #orgânico #simbólico #pontapés
Ana Carlênia Oliveira Bastos.
Psicanalista.

Referência bibliográfica:


Dolto, Françoise A IMAGEM INCONSCIENTE DO CORPO.  Ed. Perspectiva, coleção: Estudos

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Hiperatividade

HIPERATIVIDADE

Uma criança é sempre pré-matura ao nascer quando comparada ao outros mamíferos, pois depende totalmente de um Outro para desenvolver-se física e psiquicamente.

A imagem que ela tem de seu corpo também depende dessa relação com esse Outro que cuidou, banhou, alimentou e principalmente, falou com ela.

Esses primeiros tempos de vida, imprimirá marcas em seu corpo e em seu psíquico que afetará a todas as suas relações posteriores.

Portanto, a organização dela quanto ao tempo e espaço tem relação com a imagem que ela tem de si mesma, que por sua vez, depende da relação que ela teve e tem com quem cuidou e cuida dela.

Seu aquietar-se também responde ao discurso no qual ela está inserida assim como o controle de suas pulsões agressivas.

Então, como podemos ler o que acontece quando elas não conseguem parar! 

Quando não conseguem ficar quietas ou quando são desafiadoras e não obedecem  regras e disciplinas?

Encontramos na atualidade por parte de muitos profissionais, uma resposta muitas vezes precipitada, que atribui o que acontece com elas a neuroquímica de seu cérebro em vez de investigar o que acontece nas suas relações familiares.

Quando elas não conseguem ter autocontrole é importante analisar o que acontece em seu entorno para descobrir porque estão colocando em seu corpo o que deveriam estar colocando em palavras!  

É um erro grande atribuir tudo que acontece com elas ao seu biológico, deixando de fora sua singularidade e principalmente retirando delas a oportunidade de falarem.

O que podemos esperar quando retiramos do ser falante o que lhe é mais precioso: sua fala á respeito do que sente? 

- Um corpo "falante" , que mostra o que não está podendo colocar em palavras!    

#hiperatividade #crianças #quieta #disciplina #escola #aluno

Andreneide Dantas (30/09/16)   

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Dizer "Não!"

Dizer "Não!"


Para que os pais possam dizer "não!" para um filho é preciso que esse "não!" primeiramente funcione para eles.
Quando não conseguem - por não contar com recursos - é necessário que busquem ajuda, pois seus filhos ficam sem uma contenção, como um "barco" sem direção!
É o que vemos acontecer nos dias atuais com a s crianças que não páram! Que dão muito trabalho na escola, que não respeitam os pais, professores... que batem, apanham, quando não conseguem lidar com frustrações e sofrem muito com isso.
É loucura do social acreditar que essas questões tem a ver com déficit orgânico e não com enfraquecimento das funções paterna e materna. Com o medo que algumas famílias sentem em impor autoridade, por equivocadamente confundirem com autoritarismo.
Os pais precisam impor limites!
Pois essa é também uma demonstração de amor.   
 
#dizer não! #limites #amor #filhos

Andreneide Dantas (22/09/16)

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Pais não devem ser amigos dos filhos

Pais não DEVEM ser amigo dos filhos


Pois os filhos precisam encontrar no pai e na mãe, justamente um pai e uma mãe!
Se não for assim, as crianças e adolescentes ficam perdidos, desnorteados, sem ter quem os orientem.

Os amigos são escolhidos,, são pessoas com quem é possível compartilhar algumas situações, experiências e com os quais se pode brigar, xingar, desfazer laços, etc...
Ao contrário da família, que não é possível ser escolhida, mas é fundamental que seja respeitada.
Também é imprescindível que exista hierarquia, pois se isso não acontecer, estarão todos na linearidade e ai os filhos ficarão sem ter quem os protejam e transmitam os valores necessários para que eles possam desenvolverem-se física e psiquicamente sadios.

Quando um pai diz "amigo venha até aqui!", perde a oportunidade de dizer "meu filho!" e a mensagem vale para os dois, lembrando o que Lacan nos ensinou, quando o pai e ou mãe chama seu filho, a mensagem que transmite é: "Sou sua mãe  ou sou seu pai", dependendo claro de quem o profere.

E falar de um jeito ou de outro não é somente uma forma de falar, pois sempre existe a consequência para o que é dito e o que é escutado!  

#pais #filhos #amigos #

Andreneide Dantas  (04/08/16)