Psicanálise com crianças - Entrevista escrita (Parte 2)



Psicanálise com Crianças
(parte 2)





4. Quais queixas são mais comuns?

As queixas mais comuns são as dificuldades escolares: desde a troca de letras, atraso no aprendizado a repetência; dificuldades de relacionamentos com colegas, agressividade consigo e com os outros, hiperatividade, “déficit de atenção”, inibições, etc. Situações que atrapalham o desenvolvimento da criança tanto físico quanto intelectual.  O que se revela na análise é que essas dificuldades encobrem outras, que vão surgindo durante o tratamento. A medida que o tratamento transcorre, vemos qual é a posição que a criança ocupa na família, como está posicionado o casal de pais, o que eles esperam desse filho, como a criança se vê, sua relação com irmãos. etc....


5. Existem doenças (bronquites, rinites, doenças de pele, diabetes, asmas, otites..) que mesmo a criança  sendo atendida e tratada com medicamentos, os resultados não são satisfatórios, essas crianças se beneficiariam do tratamento psicanalítico?

Certamente. Tenho a experiência de atender crianças que tinham repetidas crises de bronquites, alergias e asma, faziam tratamentos medicamentosos, porém apresentavam uma melhora pequena, inclusive eram constantemente internadas, de tão graves que eram as crises. Através da análise puderam falar sobre o que lhes aconteciam na família e na escola, e aos poucos foram representando seu corpo de outra forma. Antes eram medicadas, examinadas e não tinham a chance de falar sobre o que sentiam em relação a tudo isso.

6. Quando os pais e professores, precisam procurar e indicar um tratamento psicanalítico para o filho ou aluno?

Sempre que perceberem que algo não "anda bem" com a criança: ou porque estão muito agressivas, não conseguem aprender, ficam constantemente doentes, não falam, ou demoram para falar e ou andar, tem distúrbios alimentares, não se socializam, apresentam medos acima do normal, enurese, encoprese, etc.

7. Porque muitas crianças agressivas e hiperativas tomam medicamentos?

É comum encontramos nos dias de hoje, muitas crianças com esses diagnósticos, porém precisamos ter muito cuidado, pois nem toda criança que é irrequieta ou agressiva tem hiperatividade. Ás vezes as crianças não tem disciplina, os limites não estão bem estabelecidos. Como consequência elas ficam “perdidas” sem saber o que fazer ou a quem recorrer. É importante que essas questões não sejam confundidas com problemas neurológicos. Portanto, é imprescindível um diagnóstico bem feito, para que a criança tenha a oportunidade de fazer o tratamento adequado.

8. Se uma criança com essas dificuldades não forem atendidas adequadamente, quais a s consequências futuras?

As consequências de um diagnóstico errado acarreta em tratamentos inadequados, em que a criança tomará um medicamento desnecessário que não resolverá o problema, e ainda, terá efeitos colaterais e sofrimentos que poderiam ser evitados. Isso pode fazer com que a criança tenha seu desenvolvimento físico, intelectual e psicológico prejudicados.

9. É possível que quem precise do tratamento sejam os pais e não o filho?

Sim, ás vezes os pais nos procuram para atendermos seus filhos e o que precisam realmente, é de orientação ou de análise. Pois sabemos que não é fácil exercer a função de mãe e de pai, ainda mais, em um mundo como o de hoje, onde à maioria das pessoas não se dão tempo para saber o que desejam; existem todas as ofertas do mercado, os imperativos de uma felicidade extrema, de um consumo desenfreado, e um "apelo", de alguns discursos, que os pais não frustrem seus filhos!

Existe quase um "dever” na conjuntura atual, de que os pais deem “tudo” o que seus filhos pedem, e isso é uma loucura, que só poderá trazer sofrimentos e prejuízos, tanto para os filhos quanto para os pais.


10. Podemos concluir que o tratamento psicanalítico é muito importante na infância?


Correto, quando uma criança tem a oportunidade de fazer análise, coloca para trabalhar seu inconsciente e isso a ajudará a resolver as questões psicopatológicas que estão impedindo-a de crescerem. Que podem ser decorrentes de traumas sofridos, de demandas contraditórias de seus pais, conflitos com irmãos, sofrimentos com alguma doença orgânica recorrente, etc. A análise lhe possibilitará desenvolver recursos psíquicos para enfrentar as situações de sua vida e isso as ajudará a atravessar uma adolescência sem grandes conflitos - salvos os que são comuns a essa fase - e assim, poderão ter uma vida mais equilibrada e saudável. 

Não é somente a criança que se beneficia da análise, pois os pais também são tocados por essas mudanças. O analista também os escutam, mas não pode confundir o lugar de um e de outro.

Psicanalista Andreneide Dantas
21/11/2016


*Primeira parte publicado 12/03/2014
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Comentários


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