Depressão – De qual sofrimento estamos falando ?





Depressão

De qual sofrimento estamos falando?

Segundo a Organização Mundial de Saúde OMS (World Helth Organization) a Depressão afeta mais de 350 milhões de pessoas no mundo e os dados que esse órgão acreditava que iria ser atingido em 2030, com a previsão de atingir 9,8% do total de vida saudável perdidos para essa doença, alarmantemente, foi atingido em 2010. Vinte anos antes do previsto (Folha de S. Paulo dezembro de 2014 com reportagem de Rodolfo Lucena e Mariana Versolato).

Sendo a doença que mais incapacita no mundo, esses dados merecem que prestemos mais atenção! Pois milhões de vidas são atingidas e ou interceptadas, uma vez que o número de suicídios decorrente desse estado de sofrimento é muito grande. Principalmente entre adolescentes.
Mesmo com toda a informação disponível nos mais diversos meios de comunicação, não é incomum que ainda encontremos muitos pré-conceitos e isso impede que procurem ajuda!
Outra informação muito importante é que nem todo sofrimento psíquico é Depressão. Entretanto, precisa sim que se preste atenção aos estados de sofrimentos de cada sujeito, em vez de minimizá-los e interpretá-los como um sofrimento menor do que o de uma doença orgânica, e assim acreditar que o tempo irá curá-lo! É o contrário que vemos acontecer, pois se o sujeito não procurar uma análise e não tratar seu sofrimento, a consequência será a de um mal muito maior, como disse acima.

Hoje em dia temos um aumento de diagnósticos de Depressão, e se por um lado sabemos que mais pessoas tiveram acesso ao uso de planos de saúde, não devemos esquecer que existem também interesses econômicos envolvidos. Logo, o que encontramos muitas vezes são interpretações equivocadas que atribui o estado de depressão a um resultado somente da alteração bioquímica do cérebro, deixando de lado o fato de que somos seres falantes, portanto, afetados pelo que dizemos, sentimos, pensamos e também pelo que calamos.
Por isso, não podemos reduzir o sofrimento, o mal-estar e as angústias, somente a um mal funcionamento dos neurotransmissores do cérebro, pois isso nos reduziram a ser um animal. Visto que, fazer isso é reduzir o ser falante a sua biologia.

E reduzi-lo a um corpo, é deixar de fora sua condição humana, condição de ser falante, a de ter um corpo e não sê-lo (como aprendemos com o psicanalista Jacques Lacan). E quando isso é retirado do sujeito, seu sofrimento é creditado somente a sua neurobiologia e não a um sofrimento psíquico causado por outras questões de sua vida!
Precisamos fazer uma conta rápida: quanto mais as pessoas rechaçam o fato de que por serem falantes são afetadas pelo que dizem, quanto mais esquecem que são seres de linguagem, mais se reduzem a um corpo e mais adoecem!
Pois quando não contam com recursos psíquicos, com recursos simbólicos o que toma o primeiro plano é o corpo.

Dessa forma, o sujeito não se responsabiliza por seu "destino", ele é uma “marionete” dele e de seu corpo adoecido e enlouquecido por sua fala e seus afetos.
A Depressão é resultado do sofrimento do ser falante, de como cada um é atingido por sua história familiar e por seu inconsciente, por perdas e lutos que não foram elaborados: separações, “perda” da infância, da adolescência, morte de ente queridos, o fato de ceder seu desejo, culpas inconscientes…
E o inconsciente afeta diretamente o corpo!
É comprovado que as novas medicações trazem resultados como uma alteração químico-cerebral que ajuda alguns pacientes a se sentirem melhor, a produzir serotonina e sair da depressão profunda, mas se esse sujeito não fizer um trabalho de análise, não procurar falar sobre seu sofrimento, não poderá trabalhar as causas que o levaram a depressão ou a outra forma de sofrimento psíquico.

Existem pacientes com o diagnóstico de depressão que tomam medicações, e alguns há muito tempo, e não melhoram. E não melhoram porque não falam sobre o que sentem, nesse caso a medicação traz pouco resultado.
A culpa inconsciente, a angústia, insatisfação ou a capacidade de fazer escolhas para ter saúde e felicidade, não está inscrita nos genes nem na neuroquímica do cérebro, e sim na escolha ética de cada um, quando consegue se fazer responsável pelo que deseja, diz e sente, mesmo que isso não seja fácil ou tenha relação somente com a vontade.
É muito claro que os pacientes diagnosticados com depressão tem problemas em desejar, pois cederam tanto, foram pessoas que deixaram “para depois” o que queriam, que se calaram muitas vezes, que chegam ao ponto de não terem forças físicas para levantar da cama.


Andreneide Dantas

Dezembro de 2014


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