YES Blog da Escuta: Um abismo de tristeza- Depressão

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Um abismo de tristeza- Depressão

             

Para começar, quero fazer uma distinção entre a tristeza e a depressão.
O que é tristeza? É um estado de desalento, falta de alegria, infelicidade, lástima, etc.
E na depressão o que ocorre?
Ora, o que temos escutado, lido ou assistido, é que a Depressão é um estado clínico onde encontramos uma tristeza. Mas não é somente tristeza, mas uma falta de energia, falta de desejo muito grande e uma abulia, que impede o sujeito de desenvolver normalmente suas atividades: como trabalhar, namorar, comer, conversar com amigos, desempenhar suas tarefas costumeiras e até aquelas que lhe davam prazer. Dorme mal ou dorme muito. 
Na verdade, as que lhe davam prazer já tinham abandonado bem antes....
Na maioria das vezes esses pacientes chegam até nós, quando já estão fazendo um tratamento medicamentoso. As miligramas de Prozac ou Fluoxetina já fazem parte do cotidiano desse paciente e mesmo assim, a estabilização da substância – Serotonina – (que atua no cérebro e é responsável pelas sensações de “alegria”, estados afetivos, humor) não tem proporcionado que encontre ânimo ou desejo para tocar sua vida. (hoje já existem outras medicações)
Para nós, é claro que não é a serotonina o que que vai proporcionar com que o paciente deixe de ser miseravelmente infeliz. Mesmo que haja a necessidade de que tenha uma determinada quantidade de substância para que seu cérebro funcione.
Sabemos que não é somente a química cerebral que é responsável pelo bem ou mal-estar do paciente. Mesmo com toda a eficácia medicamentosa e progresso da ciência, não existe um medicamento que faça o ser falante ser feliz, que o faça ter desejo. É verdade que para alguns pacientes a única possibilidade que ele tem de levantar da cama ou de não se matar,  ou até de poder vir até o consultório, é tomando um medicamento que altere seu humor, que trabalhe na produção da substância – serotonina – que ele não está fabricando.  E isso é muito valioso. 
Mas a ciência nada quer saber do particular, suda história do paciente, trata-o como puro órgão e esse é seu material de estudo. Essa forma lhe proporcionou avançar bastante e curar doenças que antes não era possível. Além da medicação os pacientes precisam buscar outros discursos. (*frase acrescentada em 3/10/2017)
Aprendemos com Freud e Lacan que o significante afeta o corpo, e na depressão afeta o funcionamento ou a produção de substâncias importantes para o funcionamento do mesmo. E quando o discurso do paciente está adoecendo-o, é fundamental que ele possar falar e produzir novos significantes para poder alterar seu estado afetivo ou até o funcionamento de um órgão. Quando produz novos significantes, altera o funcionamento de serotonina suficiente para alterar seu humor.
E uma análise possibilita a fala e consequentemente a escuta da palavra que estava sufocada, amordaçada.
É interessante lembrar que mesmo que o mais comum na depressão seja encontrarmos o sujeito em uma tristeza imensa, acontece em alguns que não exista sinal de tristeza. Existe mais uma abulia, onde os pacientes descrevem com pormenores sua falta de desejo em levantar, trabalhar, conversar, namorar, etc. Parece contraditório isso, se no título do meu trabalho falo de um abismo de tristeza, nem sempre é assim.  Ás vezes o que é chamado de tristeza é algo que não pode ser nomeado pelo sofredor.
O discurso do “deprimido” é repetitivo, monótono, mas, algumas vezes sem sinal de tristeza, e até com ausência de choro.. Eles falam de uma falta de sentido em suas vidas, independente do dia e ocasião, se faz sol ou chove, se conseguiu algo ou perdeu. Muitas vezes a depressão tem lugar quando houve um ganho e não uma perda...quando o paciente ganhou uma promoção ou teve um filho.
Encontramos pacientes que falando de seus sofrimentos, descrevem o que acontece com seu corpo - corpo biológico - corpo esse, que em suas falas não é apreendido como próprio, e sim, como um conjunto de órgãos, onde o sujeito não se vê responsável por ele. Ex: Paciente que sabia dos detalhes do funcionamento de seus órgãos. E dizia: o coração, o peito etc. E não....o "meu coração, meu peito...".
É na falta de palavras que a depressão encontra sua existência. Podemos considerar a depressão como um mal-estar da civilização. E porque tantos casos? A Organização Mundial de Saúde acredita que até 2020 será a segunda moléstia que mais matará.
Mas, mesmo que no início o paciente não saiba ou não diga porque está assim (deprimido) encontramos sempre um acontecimento, algo que antecedeu ao estado de depressão.
Numa época como a nossa, que é marcada por avanços tecnológicos e científicos, onde podemos contar com a possibilidade de dar uma conferência aqui no Brasil e sermos escutados e vistos no outro lado do mundo, o que encontramos são pessoas solitárias, que dizem não ter com quem fazer laços ou que acreditam que não precisam falar com os outros. Onde não têm tempo para conversar, escutar o outro, rir e até chorar quando preciso. A era da globalização faz com que os homens se aproximem dos objetos, separando-se dos semelhantes, onde anulam a questão do desejo.
O paciente deprimido renuncia a seus desejos mais íntimos, cede frente ao seu desejo, adia, deixa para lá, deixa para depois. E essa renúncia é para manter um Outro sem falta.
Lacan fala de tristeza na depressão, de covardia moral, citando Spinosa e Dante, onde há um rechaço do inconsciente, rechaço da linguagem(Televisão).
E diz ainda, que essa covardia só se situa a partir do pensamento do dever do bem–dizer ou da orientação no inconsciente, na estrutura. Trata-se portanto, de que o sentido para a tristeza ou para qualquer outro estado afetivo, seja o tratamento da ética do bem dizer através da análise.
Para o ser falante a vida é uma vida que só tem sentido,  se ele a der, e para o sujeito que está deprimido ela está esvaziada do mesmo. Eles tem dificuldades para encadear uma frase, para prosseguir. Interrompem a frase, pára, tem dificuldade para falar e para agir.
É verdade que existe uma alteração biológica, mas essa, é provocada por uma falha simbólica. E também sabemos o quanto alivia a dor certas palavras. Elas tanto podem aliviar a dor quanto ser amorte- ce-dor.
Aprendemos que é a experiência com o Outro o que pode imprimir e marcar o terreno biológico, alterando a produção de uma substância – Serotonina ou de um órgão – por exemplo a Tireoide. 
A análise possibilita o encadeamento significante, proporcionando um luto. Luto da coisa. Mas por muitas vezes o deprimido não quer separar-se do Outro, não quer abrir mão do “inferno” em que vive. Não quer, por que não consegue...pois isso responde a algo inconsciente...
Entre ele e os objetos se instala um abismo, uma impossibilidade de fazer encadeamentos significantes. Alguns pacientes descrevem seu cotidiano como um “arrastar-se” para fazer suas atividades.
Para concluir, temos na explicação médica que a depressão é causada pela baixa produção de serotonina, substância responsável pelo humor. E também uma das causas apontadas e motivo de indicações por parte dos psiquiatras é o mal funcionamento da tireoide, onde produz menos T4 ou T3 ou ainda a própria tireoide, ataca os anticorpos destruindo-os. Aqui o sujeito é reduzido a um corpo, ou melhor a um corpo despedaçado.
Mas sabemos que não se trata somente de uma disfunção cerebral, pois se trata na depressão da forma como cada um encara sua vida, como se relaciona em relação ao mal-estar na civilização. E para que cada um se dê conta disso, e dê conta de seu desejo é imprescindível que fale a um outro, a um analista para encontrar-se e descobrir-se no que diz, fazendo de sua palavra um bem alivi-a-dor. Existem os que podem fazer essa escolha e os que escolhem –mas sabemos que essa escolha não é consciente – viver acreditando que não tem nada a dizer sobre seu sofrimento...
Para os que escolhem saber o que lhes acontecem, a psicanálise oferece uma escuta. Escuta da dor de existência.

Andreneide Dantas, Agosto de 2003
Trabalho apresentado na Jornada do Rio de Janeiro “Os afetos na vida cotidiana”
Escola da Causa Analítica – RJ
Tel: (0xx21) 2236-0563



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